Desde 1996 quando coordenou o Programa de divulgação de Madeiras Alternativas para a Fabricação de Móveis do LPF/IBAMA, no Brasil, o argentino Christian Ullmann desenvolve objetos com o menor impacto possível ao meio ambiente.
Sócio diretor da iT Projetos – escritório de desenvolvimento de projetos e produtos que utiliza o design como ferramenta para melhorar as interfaces entre cultura, criatividade, tradição, economia e tecnologia – ele já recebeu prêmios na Espanha, Itália, Brasil e Argentina.
Seu expertise no assunto poderá ser conferido no curso de extensão sobre design sustentável que ele vai ministrar no IED, em São Paulo a partir do dia 3 de setembro. O Projeto Contem conversou sobre o tema com o especialista que alerta: “o mercado esta cheio de publicidade e promoções de produtos sustentáveis que em parte do discurso não vai muito além da comunicação ou de pequenas mudanças”. Leia a entrevista:
O que fez você começar a se interessar por design sustentável?
O projeto do LPF/IBAMA me possibilitou viajar e conhecer as diferentes realidades amazônicas relacionadas à extração e manejo de madeira. Isto despertou uma grande curiosidade em mim porque eu não me conformava apenas com o uso da madeira. Acabei indo atrás de outros recursos naturais disponíveis na região e procurei saber como era o relacionamento dos moradores com os diferentes processos de extração. Lá, a maioria dos projetos são enormes e a comunidade local não tem quase nenhuma participação. Na maioria das vezes, as pessoas se limitam a serem apenas operários de algum processo.
Qual é o seu foco de pesquisa?
As viagens para o interior da Amazônia foram definindo cada vez mais o meu foco: que esta relacionado aos materiais naturais, as técnicas de produção artesanal e como se da a interface desta realidade com a comunidade da região. O estilo de vida de qualquer cidade do interior sempre é muito mais interessante e “saudável” do que a nossa vida “globalizada, wi-fi e urbana”. O que aprendi junto às comunidades do interior é o que tento identificar e representar nos meus projetos para dar a oportunidade de ter esse estilo de vida mais natural nas nossas casas urbanas.
O Oficina Nômade é um projeto que une artesanato, design e trabalho com comunidades de diversos lugares do país. Você acha que esse tipo de processo colaborativo é o caminho para a mudança social?
O projeto foi criado no ano de 2001, junto com a minha sócia Tania de Paula. A mudança social é necessária e encontramos nas comunidades e seus estilos de vida, coisas diferentes interessantes que podem colaborar com a mudança e a troca continua ate hoje. O modelo colaborativo é uma das novidades que veio com o século XXI e de forma honesta nós oferecemos o melhor que temos e eles nos oferecem ou apresentam o que eles têm de melhor.
Um dos principais pensamentos da escola de design e arquitetura Bauhaus era unir artes, artesanato e tecnologia no design, pensar nele de forma diferente, contemporânea. Hoje, o pensamento em sustentabilidade é a grande sacada de um designer. Como você vê essa evolução?
A ideia da sustentabilidade e consumo mais consciente é de fato uma tendência e um nicho de mercado em crescimento – isso é muito bom. Porém o mercado esta cheio de publicidade e promoções de produtos sustentáveis que em parte do discurso não vai muito além da comunicação ou de pequenas mudanças, mas ao mesmo tempo tudo isso ajuda, pois cria uma massa crítica que discute o assunto, e aos poucos, o público, com mais informação, vai exigir mais do mercado. E a evolução é necessária ao nosso estilo de vida complexo que exige ter uma abordagem ampla. O problema é que as pessoas não gostam muito de mudanças e levar a teoria a pratica exige muita responsabilidade. Temos que entender que ainda estamos muito longe de ser sustentáveis, o que conseguimos hoje é ser um pouco mais sustentável ao criar produtos que tenham menor impacto ambiental.
Você tem exemplos de cases de produtos ecológicos que deram certo?
Podemos citar a procura por energia alternativa, energia solar e eólica que tem tido maior crescimento no mercado e todo ano são criados novos produtos que são alimentados por este tipo de energia. Se pensarmos em um veículo de transporte usando esse tipo de energia, é uma grande mudança, pois no futuro próximo não necessitaremos mais de um recurso natural não renovável como o petróleo.
Quais são os materiais sustentáveis mais viáveis para serem usados hoje em dia?
A natureza nos oferece dois tipos de materiais os renováveis e os não renováveis – os mais sustentáveis são os renováveis, que são aqueles que podem ser cultivados como madeira, fibras naturais, algodão, milho, cana-de-açúcar, entre outros.
Como você enxerga a evolução do consumo consciente?
O mais animador deste pequeno nicho do mercado é que ele continua a crescer e cada vez mais designers estão propondo novos produtos, mais empresários oferecendo mais materiais e mais lojas querendo vender.
Você acha que os produtos sensibilizam os compradores a pensar na preservação do meio ambiente?
Os produtos com boas historias sensibilizam seus usuários e proprietários. Se compro ou ganho um produto que não significa nada para mim e só me presta um serviço ou tem alguma utilidade, quando ele quebrar ou deixar de funcionar não vou sentir nada, mas se eu conheço quem fabricou ou com quais materiais ou quanto esforço foi necessário, meu relacionamento é diferente e vou cuidar mais e fazer questão de consertar se necessário. Seguramente todos mudaríamos nosso comportamento de consumo, que hoje é uso e descarte, se as empresas de eletroeletrônicos contassem como se faz um novo modelo de smartphone. Por exemplo, saber que é necessário derrubar parte de uma floresta na Amazônia para extrair a bauxita que é a matéria-prima para fazer alumínio – que vai ser transportada ate a China para ser processada e transformada em componente de algum gadget – e que nas empresas montadoras destes aparelhos o índice de desconforto e ate suicídio é muito alto, é provável que as pessoas se relacionariam de forma diferente com os aparelhinhos eletrônicos.
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